norton dallas


dragão chinês
fevereiro 5, 2008, 10:52 pm
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Querido Hélio,

Queria saber como anda sua vida aí no Rio de Janeiro. Conte-me tudo, sobre seus trabalhos, como anda o apartamento novo, esse que prometo ir conhecer assim que puder. Conte-me como você vem se adaptando à cidade, coisa não deve ser difícil, afinal, o Rio sempre foi foda, lindo – você se lembra quando fomos à praia de Ipanema? O rapaz te confundiu com um gringo e chegou puxando assunto, vendendo aqueles visores cafonas, falando em inglês macarrônico, eu não conseguia parar de rir, e você ficou puto da vida, esbravejou, afirmou sua brasilidade, até falseou um sotaque carioca, que digamos, era forçar a barra. Conte-me tudo, até sobre seus novos amores, se você se sentir à vontade comigo, senão, eu entendo. Mas saiba que saber de você é importante demais pra mim. E te conto porque a partir de agora, porque você é um dos poucos que me conhece o suficiente para entender que eu preciso pelo menos saber de alguma notícia de alguém próximo.

É a minha vida. Na verdade, é o que ela não é que me preocupa. A maneira como toquei a minha vida e as minhas escolhas me levaram a um amontoado revolto de acontecimentos, cotidianos e extraordinários, como uma chuva de folhas secas, que me sufoca. Sufoco. Sinto-me com a cabeça no teto e a água batendo no queixo. Tenho meu atelier, minhas encomendas, que são tantas, e as intervenções do grupo, as quais estão marcadas para a abertura da galeria na avenida Northmann em março (sua presença é obrigatória, acima de desculpas), fora a minha fisioterapia no ombro – que ai, dói tanto quando tenho que subir qualquer escada de marinheiro ou andaime, acho que vou comprar um binóculo e mandar alguém pintar os pontos altos do mural, hihihi, como se eu tivesse dinheiro – estou completamente cheia de coisas pra fazer, que nem sei se tenho mesmo que fazer, contas pra pagar, multas de trânsito (começo a desconfiar que minha próxima obra seja escrever o código de trânsito pessoal da Larissa), até mesmo eventos sociais, que nesse panorama, me parecem obrigações contratuais de um pacto de amizade, com firma reconhecida em cartório. Não quero mais ir a festas, chás de cozinha – as pessoas estão casando como loucas – jantares, aniversários…

Meu corpo atesta isso. Sinto que ele necessita de mais cuidado. Não que eu esteja engordando, como você lembra que eu reclamava, ao me olhar no espelho, ou quando me sentir constrangida ao seu olhar, quando estávamos juntos, até mesmo quando você me elogiava na intimidade, e eu te rebatia com risos sarcásticos ou com repreensões, nunca simplesmente agradecia ou ao menos aceitava o elogio. Em absoluto, não é um apelo por mais um elogio, um confete teu. O que o meu corpo tenta me comunicar eu sinto. Sinto o desgaste. É um arauto do Dragão. O dragão chinês, como eu venho chamando a força motriz desses acontecimentos.

Você lembra quando eu te arrastei pras celebrações do ano novo chinês, no centro da cidade, só pra eu bater fotos? Você sempre odiou multidões, eu sei. Eu sabia na época, e ainda assim dei de egoísta e te levei. Tava com medo também, ninguém topou ir comigo, nem o pessoal do atelier, achavam que era      “turistismo” meu. Mas valeu a pena, por causa de uma cena que me marcou, cuja foto eu coloquei no nosso mural. Estava no meio da avenida, você me fiscalizando, que nem guarda-costas do presidente, na calçada, quando dobrou a esquina e surgiu na avenida, a alegoria do dragão. Umas quatro pessoas, uma na frente, ditando o curso, carregando uma cabeça de dragão, que você disse, com sua tradicional veia poética, que “mais parecia um cachorro feio”. Ele se aproximava, tremulando como uma bandeira, devorando o ar, uma locomotiva sem trilhos pra guiar, e os três outros homens atrás, devidamente escondidos por debaixo de um véu colorido enfeitado, fazendo corpo à fera. Deixei que o dragão passasse por mim, ele arfou em mim, senti, na minha imaginação. A imagem me marcou muito, e a foto saiu ótima. Pronto, deixei pra sempre pra se ver.

Eu uso a imagem pra representar uma vontade, uma força dentro de mim, que me tira do comum, me obriga a fazer as coisas que imagino e crio, apenas pra mim, na minha imaginação, pra concretizá-las na matéria. Algo como uma voz, no meu inconsciente. Mas essa voz não fala, não consegue construir uma língua, ele, o dragão, apenas solta rosnados, porque eu simplesmente não sei que som sai da boca de um dragão. Mas ele não me assusta, mas me comove, me obriga a seguir pra frente, fazendo, transformando, criando, jogando no mundo, desovando as idéias. Ele me diz para tirar as coisas do seu lugar, armar a tenda de circo, montar o espetáculo, e, sem mais nem menos, largar tudo e ir adiante. Estou desconcertada.

Antigamente, anos atrás, eu estava na casa dos meus pais, pensando do que fazer da vida, vendo televisão, em qualquer canal de besteiras sortidas, ou em meu estágio na galeria Fortes-Vilaça, disfarçado um livro que lia por debaixo da mesa, ou organizando qualquer coisa da livraria. A minha versão de anos atrás, desses anos, me perguntaria “do que você está reclamando?”. Mas eu digo, estou começando a sentir-me infeliz.

No começo, foi um sentido de preocupação, ao não conseguir executar as coisas exatamente da maneira como eu as tinha imaginado. Foi numa gravura que fiz pro Pablo, de presente, quando ele se juntou com o Rafa, namorado dele. Aliás, eu lembro do ataque ridículo de ciúmes que você teve quando eu dormi na casa do Pablo, quando estávamos terminando o trabalho pra disciplina do Fajardo. Patético. Adoro o fato que você esteja lendo isso, pra eu sapatear sobre seu machismo bobo, mesmo que tardiamente. Bom, voltando à gravura, eu tinha passado horas refletindo sobre a questão do auto-retrato, estava louca discutindo o assunto com ele, que era contra a temática, disse que era egocentrismo por parte dos autores, e somente pela qualidade dos mesmos é que as obras se salvavam. Só de peraltice, decidi presenteá-lo com uma gravura dele, chamada auto-retrato. Mas eu perdi a mão no trabalho, saiu de qualquer maneira, já tinha um monte de outras coisas pra fazer, e deixei a minha cabeça em qualquer trabalho outro. Ele gostou, riu, mas no final, pareceu uma piada, nada mais. Me senti mal, e não tinha com quem compartilhar essa história.

Pois, meu trabalho vem aumentando de volume, mas eu não sei mais se controlo o resultado. Não é somente a qualidade, eu não me enxergo mais quase nele. Só o dragão. São obras dele. Me sinto devorada por ele, quero parar, me encontrar, ter tempo novamente, e não consigo. É como se minha essência, várias versões de mim somadas, tivesse, na sua maioria, deliberado por apoiar esse agente externo que é o dragão, o outro. Os instintos de auto-preservação, prudência e até mesmo medo estão alijados dentro dessa versão acanhada, que te escreve. As outras versões da Larissa, fortes, destemidas, destituídas de medo, e ao mesmo tempo de sensatez, tocaram com a locomotiva, e eu, acompanho naqueles carrinhos de trilhos movimentados por força humana, em que você se esforça com a manivela, para cima e para baixo, para cima e para baixo. Mas em vão, sem esperanças de alcançar o resto da trupe.

Falta um sentido de apreço pela normalidade, pelo estabelecimento de qualquer situação. Nenhum homem conseguiu se aproximar de mim. O trabalho vem em primeiro lugar. E eu sinto falta. Às vezes, quando chego em casa, para onde acabei de terminar a mudança (depois de meses!), e penso em mudar-me novamente. Peguei asco pela minha cozinha, acho insuportável dormir no mesmo quarto todos os dias. E sei que a culpa é do dragão, bastardo, que tomou conta de mim. Não é à toa que ele era vermelho. Vermelho como o fogo, a brasa quente, que transforma tudo, vai rápido, e ofusca a visão. Estou cega, não vejo mais nada ao meu redor. E o pior de tudo, não sei mais se estou evoluindo.

Não sei mais se mesmo após esses feitos todos, eu terei realmente mudado, aprendido com tudo isso, uma vez que não tomo conta mais dos meus feitos, se eles são quase automáticos, mecânicos, você entende? Esse é meu medo, de me tornar refém da minha força criativa, e não aproveita-la como usufruto da construção do meu ser. Não quero envelhecer assim. É por isso que te escrevo. Para receber de você, Hélio, com quem eu tive a chance de poder me ver com mais clareza, com quem eu pude aprender sobre mim mesma como nunca em minha vida, um pouco de sentido de harmonia. Pela nossa história, pelo que fomos juntos, te peço ajuda. Faça-me lembrar um pouco quem eu era antes. Antes do dragão. Porque você ainda é a pessoa que eu mais admiro, Hélio. Sempre soube se situar, enquanto eu sempre girava louca em sua volta.

O convido a conhecer meu trabalho – se ainda for possível chama-lo assim – como desculpa pra você me trazer boas energias, ainda mais do Rio, que você anda recebendo, sortudo. Senão, pelo menos escreva pra mim, preciso saber da sua vida, mesmo.

Você faz muita falta (por mais que ache que não).

Beijos da Larissa.


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